Por Carla Bruno

Como preparar sua empresa para os impactos reais da Reforma Tributária
A Reforma Tributária brasileira já começa a produzir impactos concretos antes mesmo de sua implementação integral. Isso ocorre porque a mudança proposta vai muito além da substituição de tributos ou da alteração de alíquotas. Trata-se de uma transformação estrutural na forma de tributar o consumo, na lógica de apuração dos impostos, no aproveitamento de créditos e, principalmente, na maneira como as empresas devem planejar suas operações e tomar decisões estratégicas.
Apesar disso, o debate sobre impacto tributário ainda costuma ser conduzido de forma restrita. Em muitos casos, a análise se concentra quase exclusivamente na carga nominal do imposto, como se o principal risco estivesse apenas em pagar mais ou menos tributo. Essa leitura, embora compreensível, é limitada. Na prática, o maior impacto financeiro raramente decorre apenas do percentual aplicado, mas das decisões adotadas ao longo do tempo ou da ausência delas.
A experiência empresarial demonstra que perdas relevantes de margem e eficiência fiscal estão, em grande parte, associadas a escolhas estruturais mal dimensionadas. É comum encontrar enquadramentos tributários definidos sem simulações consistentes, políticas de preços desconectadas da lógica da não cumulatividade, créditos tributários subaproveitados ou operações mantidas por conveniência, mesmo quando já não se sustentam economicamente. Soma-se a isso a existência de estruturas societárias que não refletem a dinâmica real da operação, gerando custos adicionais e complexidade desnecessária.
Outro fator recorrente é a tomada de decisão baseada exclusivamente em dados históricos. Muitas empresas projetam seus cenários futuros considerando regras, exceções e premissas que fizeram sentido no modelo anterior, mas que perdem relevância diante da Reforma Tributária. O novo sistema reduz a dependência de tratamentos diferenciados e de construções interpretativas, tornando mais visíveis fragilidades que antes eram absorvidas pela complexidade do ambiente tributário.
Com a consolidação de tributos sobre o consumo mais amplos e plenamente não cumulativos, como o IBS e a CBS, a lógica operacional se altera de forma significativa. O crédito tributário passa a ocupar papel central na formação do resultado, exigindo maior controle, rastreabilidade e integração entre áreas fiscais, financeiras e operacionais. A coerência entre cadeia de suprimentos, modelo de negócios, precificação e estrutura jurídica deixa de ser apenas uma boa prática e passa a ser condição essencial para a preservação da margem.
Decisões que anteriormente tinham impacto limitado agora produzem efeitos diretos e mensuráveis sobre o fluxo de caixa e a competitividade. A definição do local de produção, a organização da logística, o modelo de comercialização adotado e a forma de estruturar contratos e operações passam a ter relevância estratégica. A tributação deixa de ser um tema tratado apenas no encerramento do período fiscal e passa a ser consequência direta da forma como a empresa opera.
Nesse contexto, a organização interna ganha protagonismo. Processos bem definidos, contratos alinhados à realidade operacional e estruturas societárias coerentes influenciam diretamente o custo tributário efetivo. Em muitos casos, esses fatores são mais determinantes para o resultado econômico do que a própria alíquota nominal aplicada ao tributo.
Empresas que adotam uma abordagem baseada em dados, simulações e análise de cenários tendem a atravessar esse período de transição com mais segurança. Ao testar alternativas antes de implementá-las, reduzem erros e conseguem ajustar estratégias com maior agilidade. Além disso, ao alinhar corretamente preços, custos e créditos tributários, preservam margens e reduzem a exposição a mudanças regulatórias futuras.
A Reforma Tributária, portanto, atua como um elemento de evidência. Ela não cria todas as ineficiências, mas torna visíveis problemas estruturais que já existiam. Organizações com processos fragmentados, estruturas desalinhadas e decisões tomadas sem base analítica sentirão os efeitos de forma mais intensa. Em contrapartida, empresas que compreendem o tributo como resultado de uma decisão bem planejada e não como seu ponto de partida tendem a se adaptar com maior previsibilidade.
Ao final, o imposto representa apenas o desfecho de uma cadeia de escolhas. O custo real surge antes, quando decisões são tomadas sem visão sistêmica. A Reforma Tributária apenas torna essa relação mais transparente e eleva o custo de ignorá-la.
6 erros financeiros e contábeis que estão drenando o lucro da sua empresa
Muitas empresas acreditam que pagar impostos em dia e entregar declarações ao Fisco é sinônimo de uma contabilidade eficiente. Mas, na prática, os maiores prejuízos financeiros não vêm de multas, e sim de erros estruturais na gestão financeira e contábil, que passam despercebidos no dia a dia e corroem os resultados silenciosamente.
A seguir, listamos os principais erros que vemos com frequência e que custam caro às empresas:
1. Confundir financeiro com contabilidade
Um dos erros mais comuns é tratar financeiro e contabilidade como áreas independentes.
O setor financeiro registra pagamentos, recebimentos e o fluxo de caixa.
A contabilidade transforma essas informações em demonstrações, indicadores e base para decisões estratégicas.
Quando o financeiro falha com conciliações incompletas, atrasos ou informações inconsistentes, a contabilidade apenas reflete o problema. O resultado é a geração de relatórios que não inspiram confiança e decisões tomadas com base em dados frágeis.
Contabilidade não corrige falhas do financeiro. Ela demonstra.
2. Falta de conciliação bancária recorrente
Empresas que não realizam conciliações bancárias frequentes operam praticamente no escuro.
Diferenças entre extratos bancários e o sistema interno geram:
• Saldos irreais
• Receitas ou despesas duplicadas
• Pagamentos não identificados
• Perda de controle sobre o caixa real
Sem conciliação, não existe número confiável. E sem número confiável, não existe planejamento.
3. Escolher o regime tributário apenas pelo menor imposto aparente
Optar pelo regime tributário olhando apenas o valor do imposto do mês é um erro clássico.
O regime correto depende de:
• Margem de lucro
• Estrutura de custos
• Volume de despesas dedutíveis
• Tipo de atividade
• Perspectiva de crescimento
Muitas empresas permanecem no Lucro Presumido por simplicidade, mesmo quando já não é o regime mais eficiente. Outras optam pelo Simples Nacional sem atender aos requisitos legais.
O resultado é pagamento excessivo de impostos ou risco fiscal.
Planejamento tributário não é apenas trocar de regime. É modelar a operação.
4. Misturar custos pessoais com os da empresa
Esse erro ainda é mais comum do que parece, especialmente em empresas familiares ou em fase de crescimento.
Quando despesas pessoais entram na conta da empresa, ou vice-versa, ocorre:
• Distorção do lucro real
• Dificuldade na análise de desempenho
• Problemas societários e fiscais
• Perda de credibilidade junto a bancos e investidores
Uma empresa saudável exige separação clara entre pessoa física e jurídica.
5. Falta de visão integrada no planejamento
Planejamentos financeiro e tributário não podem ser feitos de forma isolada ou reativa.
Sem uma visão integrada, a empresa:
• Perde oportunidades de economia fiscal legítima
• Toma decisões de curto prazo que comprometem o futuro
• Não consegue estruturar grupos empresariais de forma eficiente
Planejar é definir um ponto de partida, escolher um regime-base viável e, a partir dele, estruturar alternativas com segurança jurídica.
6. Acreditar que arrumar depois sai mais barato
Deixar para organizar o financeiro, a contabilidade e a tributação quando sobrar tempo costuma sair caro.
Correções tardias envolvem:
• Retrabalho
• Ajustes fiscais complexos
• Perda de oportunidades
• Contingências desnecessárias
Organização preventiva custa menos do que correção corretiva.
Conclusão
Empresas não perdem dinheiro apenas pagando impostos. Elas perdem dinheiro por:
• Decisões mal fundamentadas
• Números inconsistentes
• Ausência de método
• Falta de integração entre financeiro, contabilidade e estratégia tributária
Uma contabilidade bem estruturada não serve apenas para cumprir obrigações legais. Ela é ferramenta de gestão, proteção e crescimento.
Se sua empresa sente dificuldade em confiar nos próprios números ou não sabe se está no melhor regime tributário, o problema pode não ser o imposto, mas sim a estrutura por trás dele.
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