Por Igor Gabardo

O Fim da Jornada do Herói Solitário e o Início da Era da Orquestração
A história da gestão corporativa moderna, especialmente nas últimas três décadas, foi escrita sob a ótica da “Jornada do Herói”. Nesta narrativa, consagrada pelas estruturas hierárquicas do século XX e amplificada pela cultura do empreendedorismo individualista, o gestor é o protagonista central. Ele opera como um personagem de RPG (Role-Playing Game) de nível elevado, um indivíduo que acumulou experiência (XP) através de batalhas operacionais incessantes, equipou-se com MBAs e certificações como se fossem armaduras lendárias, e cuja função primordial é resolver problemas complexos com suas próprias mãos ou liderar um pequeno grupo de aventureiros — sua equipe direta — através de masmorras lineares de processos corporativos. O sucesso, neste paradigma, dependia intrinsecamente dos atributos individuais desse líder: seu carisma (Charisma), sua inteligência técnica (Intelligence) e, sobretudo, sua capacidade de “grinding” — o trabalho duro, repetitivo e manual necessário para subir de nível e entregar resultados.
No entanto, conforme estabelecemos no artigo anterior sobre a Maturidade Digital 1, chegamos a um ponto de inflexão irreversível. O modelo de liderança baseado no heroísmo individual e na centralização técnica não é apenas obsoleto; ele tornou-se um gargalo existencial para as organizações que almejam sobreviver à próxima década. A complexidade do ambiente de negócios projetado para 2026-2030, impulsionada pela onipresença de dados e pela velocidade vertiginosa da Inteligência Artificial, torna humanamente impossível que um único “personagem”, por mais alto que seja seu nível, processe todas as variáveis, tome todas as decisões táticas e execute as ações necessárias para manter a competitividade.1
Estamos testemunhando, portanto, uma mudança fundamental de gênero na “gameplay” corporativa. Estamos migrando do paradigma do RPG para o RTS (Real-Time Strategy — Estratégia em Tempo Real). Neste novo ecossistema, o gestor deixa de ser o guerreiro que brande a espada na linha de frente, limitado pelo seu campo de visão imediato e pela sua barra de energia (stamina). Ele ascende para se tornar o Comandante que observa o mapa de cima, gerenciando recursos escassos, construindo infraestruturas escaláveis e, crucialmente, orquestrando exércitos de unidades autônomas — algumas biológicas (humanos), mas cada vez mais sintéticas (agentes de IA).
Este relatório, o segundo de nossa série sobre a transformação digital e a liderança do futuro, aprofunda-se na revolução dos Agentes Autônomos (Agentic AI) e como eles forçam uma redefinição radical do papel da liderança. Não estamos mais debatendo a utilização de ferramentas passivas como o ChatGPT para redigir e-mails; estamos analisando sistemas que percebem, raciocinam e agem sobre o mundo digital.3 O gestor do futuro próximo não é um supervisor de tarefas; é um Treinador de Bots, um arquiteto de fluxos de trabalho e um estrategista de sistemas híbridos. A pergunta central deixa de ser “Como eu faço isso?” para “Como eu treino meu ecossistema de agentes para fazer isso de forma autônoma, personalizada, segura e escalável?”.
Parte I: A Psicologia da Nova Liderança — O Gestor “Gamer” e a Demanda por Personalização
Para compreender a magnitude da mudança nas ferramentas de gestão, é imperativo primeiro entender a mudança na mente de quem vai operá-las. A ascensão da Geração Z e dos Millennials mais jovens aos cargos de gestão não é apenas uma troca demográfica; é a chegada de uma nova “mentalidade de sistema” moldada por décadas de imersão em ambientes digitais complexos e jogos eletrônicos.
1.1. A Mente do Nativo Digital: Do Tetris ao Minecraft
A analogia com os videogames não é um recurso retórico superficial; é o modelo mental predominante da nova força de trabalho. As gerações anteriores operavam sob o que podemos chamar de “Mentalidade Tetris”. No Tetris, o trabalho chega como blocos predefinidos (tarefas), caindo em um ritmo cada vez mais rápido. O papel do gestor era girar esses blocos e encaixá-los nas linhas existentes para evitar que a tela transbordasse. Era um jogo de reação, de organização dentro de limites rígidos e de limpeza de processos lineares.4 O sucesso era medido pela capacidade de manter a ordem e evitar o caos por mais tempo.
A nova geração de gestores, contudo, cresceu sob a “Mentalidade Minecraft” ou “Roblox”. Para eles, o ambiente digital não é um fluxo de tarefas a ser eliminado, mas um mundo aberto — um sandbox (caixa de areia) — repleto de recursos brutos que podem ser combinados para criar novas ferramentas e estruturas.4 Eles não aceitam o software como uma ferramenta imutável entregue pelo departamento de TI; eles veem o software como uma plataforma maleável que deve ser “moddada” (modificada) para se adaptar às suas necessidades específicas de expressão e eficiência.7
Essa distinção é crucial. O gestor “Gamer” não quer apenas usar o ERP (Enterprise Resource Planning); ele quer customizar a interface, automatizar as rotinas chatas (o “grinding”) e criar atalhos (macros) que lhe deem vantagem competitiva. A personalização não é um luxo; é um requisito básico de usabilidade. Eles esperam que seus sistemas de gestão possuam a mesma fluidez e capacidade de resposta que os jogos de mundo aberto que dominaram em sua juventude.9
1.2. O Desejo por “Modding” Corporativo e a Rejeição da Rigidez
Historicamente, o software corporativo foi desenhado com base na premissa da padronização rígida para garantir controle e conformidade. Um processo de compra no SAP ou Oracle era idêntico para um gerente em São Paulo ou em Tóquio, independentemente das nuances locais. Para a nova geração de líderes, essa rigidez é interpretada como um “bug” de design, não uma feature.
Estudos sobre a interação da Geração Z com a tecnologia mostram uma preferência clara por ambientes que permitem “agência” e “co-criação”.8 No contexto dos jogos, o “modding” — a prática de alterar o código ou os ativos de um jogo para criar novas experiências — é uma das formas mais elevadas de engajamento. Transpondo isso para o ambiente corporativo, o novo gestor espera ser capaz de realizar “modding” nos seus fluxos de trabalho. Se o processo de aprovação de despesas é lento, ele quer criar um agente autônomo que pré-valide os recibos e apenas o notifique das exceções, sem precisar abrir um chamado para a TI e esperar seis meses por uma alteração no código fonte do sistema legado.11
Essa demanda por personalização colide frontalmente com as arquiteturas monolíticas do passado. O gestor moderno exige sistemas que funcionem como “Sandboxes Seguros”: ambientes onde eles possam experimentar novos modelos de automação e análise de dados sem derrubar o servidor principal da empresa.13 A capacidade de personalização passa a ser vista como uma extensão da competência do líder; um gestor que não consegue adaptar suas ferramentas é visto como um “NPC” (Non-Playable Character), alguém limitado por scripts predefinidos, incapaz de inovação real.
1.3. Feedback Loops e a Gamificação da Performance
Outro aspecto vital trazido pela mentalidade gamer é a expectativa por feedback imediato e visualização clara de progresso. Em um RPG ou RTS, o jogador tem barras de experiência, árvores de habilidades (skill trees) e estatísticas de desempenho visíveis em tempo real. No mundo corporativo tradicional, o feedback é anual (avaliação de desempenho) e os KPIs são frequentemente opacos ou atrasados.15
Os Agentes Autônomos e a IA generativa oferecem a infraestrutura para atender a essa demanda. O novo gestor espera atuar como um “Treinador” que vê as estatísticas de seus “atletas” (bots e humanos) em tempo real. Ele quer dashboards que não sejam estáticos, mas que narrem a história do desempenho da equipe momento a momento, permitindo micro-ajustes táticos — o equivalente a dar um “buff” (melhoria temporária) em uma unidade durante uma batalha crítica.16 A gamificação aqui não se refere a transformar o trabalho em brincadeira com badges superficiais, mas a trazer a clareza de objetivos, a transparência de métricas e a agência sobre o resultado que tornam os jogos tão engajantes para essa demografia.10
Parte II: A Arquitetura do Futuro — O Core Estável e a “Shell” Líquida
Para viabilizar a visão do gestor como um estrategista de RTS que personaliza seus exércitos, a infraestrutura tecnológica subjacente das organizações precisa sofrer uma metamorfose. O modelo monolítico, onde interface, lógica de negócios e dados vivem em um bloco inseparável, é incompatível com a velocidade da era da IA. Surge então o paradigma do “Core Estável com Shell Inteligente e Personalizável”.
2.1. O Fim do Monólito: ERP Componível e Arquitetura Headless
O futuro do software de gestão reside na arquitetura Componível (Composable ERP). Neste modelo, a empresa é visualizada não como um edifício de concreto, mas como um conjunto de blocos de LEGO — microsserviços e APIs modulares — que podem ser montados e remontados conforme a estratégia muda.18
- O Core Estável (O Motor do Jogo): No centro, temos o “Ledger” imutável — os registros financeiros, fiscais e legais que exigem precisão absoluta e conformidade regulatória. Assim como o motor gráfico de um jogo (Game Engine) define as leis da física e a renderização básica que não podem ser quebradas, o Core do ERP garante que a contabilidade feche e os impostos sejam pagos. Este núcleo deve ser robusto, seguro e, paradoxalmente, “chato” e invisível.21
- A Shell Personalizável (A Interface e os Mods): Ao redor deste núcleo estável, reside a camada de inovação: a “Shell” ou casca, composta por Agentes Autônomos e Interfaces Generativas. É aqui que o gestor atua. Ele não altera o código contábil do Core, mas configura agentes que interagem com esse Core para extrair dados, processar transações e gerar insights de formas únicas para seu departamento.23
Essa separação é o que permite a personalização em escala. O “Core” é o mesmo para todos (garantindo a “Single Version of Truth” 24), mas a forma como cada gestor interage com ele é totalmente moldada por IA.
2.2. Generative UI: A Interface que se Desenha em Tempo Real
A manifestação mais visível dessa “Shell” inteligente é a Interface de Usuário Generativa (Generative UI ou GenUI). Até 2024, as interfaces de software eram determinísticas: um designer humano decidia onde ficava cada botão, e todos os usuários viam a mesma tela. Isso é o equivalente a um jogo linear.
Em 2026, com o avanço de LLMs multimodais, entramos na era das interfaces probabilísticas e fluidas. Quando um gestor pergunta ao sistema: “Como está a performance de vendas da nova linha de produtos no Nordeste comparada com a campanha de marketing do mês passado?”, o sistema não o leva para um menu fixo. O Agente de IA:
- Compreende a Intenção: Analisa o pedido semântico.
- Busca os Dados: Conecta-se às APIs do ERP (Vendas) e do CRM (Marketing).
- Gera a Interface: Desenha, em tempo real, um dashboard único — talvez um mapa de calor sobreposto a um gráfico de linhas de investimento — especificamente para responder àquela pergunta naquele momento.25
Para o novo gestor, o software deixa de ser uma série de telas para decorar e passa a ser uma superfície líquida que se adapta ao seu contexto.26 Isso elimina a curva de aprendizado de navegação (clicar em menus) e foca puramente na curva de aprendizado de fazer as perguntas certas (estratégia). Se o gestor prefere ver dados em tabelas, a IA aprende e apresenta tabelas. Se prefere gráficos visuais, a IA se adapta. É a personalização definitiva, comparável a configurar o HUD (Heads-Up Display) de um jogo complexo para mostrar apenas as informações vitais para o estilo de jogo daquele jogador.29
2.3. Agentes Autônomos como a Camada de Orquestração
Se a GenUI é a pele do novo sistema, os Agentes Autônomos são os músculos e o cérebro tático. Diferente dos chatbots passivos, os agentes possuem “agência”: a capacidade de perseguir objetivos abstratos através de múltiplos passos sem supervisão humana constante.3
A arquitetura técnica de um agente empresarial típico em 2026 envolve:
- Percepção (Sensors): Monitoramento contínuo de eventos no Core (ex: “Novo pedido entrou”, “Estoque baixou do mínimo”).
- Memória (Context): Acesso ao histórico do cliente, políticas da empresa e preferências do gestor (RAG – Retrieval-Augmented Generation).
- Raciocínio (Brain/LLM): Capacidade de planejar uma sequência de ações (ex: “Para repor estoque, preciso cotar com 3 fornecedores, aprovar o menor preço e agendar entrega”).
- Ação (Tools/Actuators): Permissão para executar transações via API (enviar e-mail, criar Ordem de Compra no ERP).32
Essa camada agêntica atua como o middleware definitivo para a personalização de processos.34 O software “padrão” não precisa saber lidar com uma exceção logística específica de um cliente VIP; o gestor simplesmente treina um Agente de Logística para tratar aquele cliente de forma diferenciada, criando uma regra de negócio flexível que vive na camada do agente, não no código rígido do ERP.
Parte III: O Novo Papel do Gestor — De Jogador a ‘Treinador de Bots’
Com a infraestrutura de RTS estabelecida (Core Estável + Agentes), o papel do gestor sofre sua transformação final. Ele não é mais pago para executar tarefas (microgestão), mas para desenhar e treinar os sistemas que executam as tarefas. Ele se torna um Treinador de Bots.
3.1. A Competência de “Prompt Engineering” como Delegação Estratégica
No passado, delegar significava pedir a um humano e esperar que ele usasse seu julgamento e “bom senso”. Com agentes de IA, “bom senso” não existe; existe apenas o que foi explicitamente programado ou inferido no treinamento. Portanto, a habilidade de escrever prompts evolui de um truque técnico para uma competência gerencial essencial de Arquitetura de Intenção.35
O Treinador de Bots deve saber decompor objetivos estratégicos complexos em diretrizes claras que a máquina possa seguir sem alucinar. Isso envolve:
- Definição de Persona: “Você é um auditor sênior cético. Analise este balanço procurando inconsistências agressivas.”
- Cadeia de Pensamento (Chain-of-Thought): O gestor não pede apenas o resultado; ele ensina ao bot como pensar. “Primeiro, compare as despesas com o ano anterior. Segundo, isole as variações acima de 10%. Terceiro, verifique se há justificativas nos memorandos anexos.”.31
- Few-Shot Prompting (Gestão por Exemplo): Em vez de escrever regras abstratas, o gestor fornece exemplos de “o que é um bom trabalho”. “Aqui estão 5 exemplos de e-mails de negociação que tiveram sucesso. Use este tom e estrutura.”
Essa é a nova forma de “mentoria”. O gestor transfere seu conhecimento tácito e experiência para o agente através de exemplos e instruções estruturadas, criando um ativo digital que pode trabalhar 24/7.36
3.2. O Ciclo de Feedback (RLHF Gerencial)
A sigla técnica RLHF (Reinforcement Learning from Human Feedback — Aprendizado por Reforço com Feedback Humano) descreve como os grandes modelos de IA são treinados. No contexto corporativo, isso se torna a rotina diária do gestor.
O Treinador de Bots não executa o processo; ele revisa os “replays” das execuções dos agentes.
- Análise de Logs: O gestor analisa as interações do agente com clientes ou sistemas internos. Onde o agente hesitou? Onde ele foi rude? Onde ele tomou uma decisão subótima?
- Correção e Refinamento: Ao identificar um erro, o gestor não apenas corrige o resultado final; ele corrige a instrução (o prompt) ou adiciona um novo exemplo à base de conhecimento do agente para que o erro não se repita. É um processo contínuo de fine-tuning operacional.31
Dessa forma, a “personalização” do software acontece organicamente. Quanto mais o gestor corrige e guia o agente, mais o agente se torna uma extensão personalizada da vontade e do estilo daquele gestor. O software “aprende” a gerenciar como o gestor gerenciaria, mas com escala infinita.
3.3. Definindo as Regras do Jogo: Governança e Guardrails
No paradigma RTS, o jogador define a postura de suas unidades (Agressiva, Defensiva, Furtiva). No corporativo, isso é a governança ética e operacional. O maior risco da IA Agêntica é a execução autônoma de ações erradas em alta velocidade (ex: dar um desconto de 90% indevido a mil clientes em 1 minuto).
O Treinador de Bots é responsável por configurar os Guardrails (Guarda-corpos) dos seus agentes:
- Limites de Autonomia: “Você pode aprovar reembolsos até R$ 500,00. Acima disso, escale para mim.”.38
- Verificação de Fatos: “Nunca cite uma lei ou regulamento sem cruzar a referência com a base de dados jurídica interna oficial.”
- Tom e Marca: Garantir que a “personalidade” do agente esteja alinhada aos valores da empresa.
A governança deixa de ser um documento empoeirado de compliance para ser um conjunto de regras ativas codificadas nos agentes. O gestor define o “círculo mágico” dentro do qual o agente pode operar livremente (o Sandbox), garantindo segurança sem matar a agilidade.39
Parte IV: Gameplay na Prática — Cenários de RTS Corporativo
Para ilustrar a transformação, vamos analisar como o modelo RTS se aplica a funções corporativas reais, contrastando o modelo antigo (RPG) com o novo (Treinador de Bots).
4.1. Cenário: A Batalha Logística (Supply Chain)
- Modelo RPG (O Passado): O Gestor de Logística chega de manhã e vê 50 e-mails de atraso. Ele (o herói) abre planilha por planilha, liga para transportadoras, negocia prioridades e apaga incêndios um a um. Sua “stamina” acaba às 18h. O problema da “última milha” é resolvido manualmente.
- Modelo RTS (O Futuro): O Gestor acorda e olha seu “Minimapa” (Dashboard GenUI). Ele vê alertas vermelhos em uma rota específica. Ele não liga para o motorista. Ele seleciona um grupo de Agentes de Negociação de Frete e define uma nova estratégia: “Priorizem a entrega para clientes Platinum nesta região, autorizando até 15% de sobrepreço em frete expresso.”
- Os agentes executam a negociação com milhares de motoristas simultaneamente via apps de mensagem.
- Outro grupo de Agentes de Clientes avisa proativamente os receptores sobre o atraso, oferecendo opções personalizadas de re-agendamento baseadas no histórico de preferência de cada um (hiper-personalização da última milha).41
- O Gestor apenas monitora o KPI de “Custo vs. Satisfação” se equilibrando em tempo real, intervindo apenas nas exceções críticas que os agentes não conseguiram resolver (Fog of War dissipado por dados).
4.2. Cenário: O Recrutamento de Talentos (HR)
- Modelo RPG: O Recrutador lê 100 currículos, entrevista 10 pessoas, toma notas manuais. O processo é linear e lento. A experiência do candidato é padronizada e fria.
- Modelo RTS: O Gestor de Talentos comanda um esquadrão de Agentes de Sourcing. Ele define os parâmetros da “missão”: “Busquem perfis com experiência em Rust e liderança de projetos open-source, mas valorizem candidatos atípicos de indústrias criativas.”
- Os agentes varrem o LinkedIn, GitHub e comunidades de nicho 24/7.
- Eles iniciam conversas personalizadas e contextualizadas com candidatos potenciais, respondendo dúvidas sobre cultura e benefícios em tempo real.
- O Gestor recebe uma lista curta de candidatos “aquecidos”, com resumos de suas interações e análises de fit cultural geradas pela IA. Ele foca seu tempo humano na entrevista final de “venda” da vaga e conexão emocional. O processo é escalável e profundamente personalizado para cada candidato.43
4.3. Cenário: Controladoria e Auditoria (Financeiro)
- Modelo RPG: O Auditor puxa amostragens aleatórias de notas fiscais, verifica conformidade em planilhas Excel. É um processo reativo e amostral (risco de erro alto).
- Modelo RTS: O Controller configura Agentes Sentinelas que monitoram 100% das transações em tempo real.
- Quando uma anomalia é detectada (ex: uma nota fiscal duplicada ou fora do padrão de preço histórico), o agente bloqueia o pagamento e solicita explicação ao emissor automaticamente.
- O Gestor atua apenas sobre as anomalias confirmadas, treinando o agente para refinar o que é “fraude” e o que é “variação de mercado”. A auditoria torna-se contínua e total, não amostral e anual.44
| Função | Ação do Gestor RPG (Manual) | Ação do Gestor RTS (Bot Trainer) | Ganho de Escala |
| Vendas | Escrever e-mail de prospecção para 10 leads/dia. | Treinar agente para personalizar abordagem para 10.000 leads/dia com base em notícias recentes de cada empresa. | 1000x |
| Atendimento | Resolver ticket de suporte complexo. | Analisar tickets falhos, ajustar a base de conhecimento (RAG) para que o agente resolva na próxima vez. | Exponencial |
| Marketing | Criar uma campanha para um segmento. | Definir diretrizes da marca e deixar agentes criarem variações de anúncios personalizadas para cada indivíduo (1:1). | Infinito |
Parte V: Os Riscos do Jogo — “Fog of War”, Caixas Pretas e a Ética da Automação
A transição para o modelo RTS não é um caminho livre de perigos. Assim como nos jogos de estratégia, a complexidade traz novos modos de falha que podem ser catastróficos se não gerenciados.
5.1. A Ilusão da Caixa Preta e a Necessidade de “Explicabilidade”
O maior risco para o Treinador de Bots é perder o entendimento de como o resultado foi atingido. Se o agente toma decisões complexas baseadas em redes neurais probabilísticas, a empresa pode se tornar uma “Caixa Preta”.
- O Risco: Um agente de crédito começa a negar empréstimos para um grupo demográfico específico devido a um viés oculto nos dados de treinamento. O gestor vê o lucro subir (curto prazo), mas não vê o risco reputacional e legal se acumulando (longo prazo).
- A Solução: Auditoria de “Cadeia de Pensamento” (Chain-of-Thought Audit). O software de gestão deve exigir que os agentes registrem não apenas a decisão, mas a lógica passo-a-passo usada. O gestor deve auditar esses logs de raciocínio regularmente. A explicabilidade torna-se um pilar de compliance.46
5.2. Alucinação Estratégica e a Integridade dos Dados
No RTS, se seus batedores lhe dão informações falsas sobre a posição do inimigo, você perde a guerra. No corporativo, se a IA “alucina” dados de mercado ou inventa fatos sobre clientes, a estratégia colapsa.
- Integridade de Dados: A máxima “Lixo entra, Lixo sai” é elevada à potência máxima com agentes autônomos. A manutenção da qualidade dos dados mestres (o Core Estável) torna-se a tarefa de defesa mais crítica da organização. Sem dados confiáveis, os agentes são mísseis guiados sem sistema de navegação.48
- Verificação Cruzada: Sistemas maduros usarão múltiplos agentes para verificar o trabalho uns dos outros (Red Adversarial), reduzindo a taxa de erro antes que ela chegue ao cliente.
5.3. A Atrofia da Habilidade Humana (De-Skilling)
Se delegarmos todo o trabalho tático aos bots, como treinaremos a próxima geração de comandantes? Um general de RTS geralmente começou como um soldado. Se os juniores nunca escreverem um e-mail difícil ou negociarem um frete manualmente, eles desenvolverão a intuição necessária para treinar os bots no futuro?
- O Desafio: As empresas precisarão criar “simuladores” e rotinas de treinamento deliberado onde os humanos pratiquem a execução manual para entender os princípios, antes de passarem a supervisionar a IA. A educação corporativa deixará de ser sobre “como usar o software” para ser sobre “como o negócio funciona”.50
Conclusão: O Jogo Infinito da Maturidade Agêntica
A analogia do jogo é poderosa, mas tem um limite: jogos como StarCraft ou Final Fantasy têm um fim (“Game Over” ou Vitória). Nos negócios, como diria Simon Sinek, estamos em um “Jogo Infinito”. O objetivo não é vencer uma partida, mas manter-se jogando o máximo de tempo possível.
A transição do gestor de Herói de RPG para Comandante de RTS e Treinador de Bots não é uma escolha de estilo; é uma adaptação evolutiva necessária. As empresas que tentarem lutar a guerra de 2030 com heróis individuais armados de planilhas serão atropeladas por organizações que operam como enxames (swarms) coordenados de inteligência híbrida.
O “Treinador de Bots” é, em última análise, um humanista tecnológico. Ele usa a máquina para escalar a intenção humana. Ele remove a robótica do humano (as tarefas repetitivas) e a transfere para os robôs, permitindo que o humano foque no que é insubstituível: a definição do propósito, a ética, a empatia e a estratégia criativa.
Para os líderes que leem este relatório, o chamado para a ação é imediato:
- Abandone o Microgerenciamento: Pare de “grindar” XP em tarefas que um agente poderia fazer. Comece a documentar seus processos mentais.
- Adote o “Sandbox”: Crie ambientes seguros onde sua equipe (especialmente os talentos da Geração Z) possa testar e criar seus próprios agentes. Dê a eles as ferramentas de “modding”.
- Foque na Arquitetura: Exija de seus fornecedores de tecnologia sistemas abertos e componíveis, não caixas fechadas. A capacidade de conectar agentes ao seu Core será seu maior diferencial competitivo.
O futuro não pertence à IA. O futuro pertence aos líderes que souberem treinar a IA para jogar o seu jogo. A era do RTS corporativo começou. GLHF (Good Luck, Have Fun).
Tabela 2: Resumo Comparativo dos Paradigmas de Gestão
| Dimensão | Paradigma RPG (Tradicional) | Paradigma RTS (Agêntico) |
| Foco Principal | Desenvolvimento do Indivíduo (Avatar) | Desenvolvimento do Sistema (Exército/Economia) |
| Unidade de Trabalho | Tarefa Isolada | Fluxo de Trabalho Autônomo (Workflow) |
| Escala | Limitada pelo tempo humano (Headcount) | Limitada pelo Compute e Qualidade do Prompt |
| Interface | Menus Estáticos e Padronizados | Generative UI (Líquida e Personalizada) |
| Mentalidade | Tetris (Organizar o caos que chega) | Minecraft/Sandbox (Construir e Modificar) |
| Papel do Líder | Supervisor e Executor (Hero) | Arquiteto e Treinador (Bot Trainer) |
| Tratamento de Erros | Correção pontual do resultado | Refinamento do Prompt/Modelo (Fine-Tuning) |
| Principal Risco | Burnout humano, gargalo de decisão | Alucinação da IA, Viés de “Caixa Preta” |
Referências Citadas no Relatório
1 Artigo anterior sobre Maturidade Digital. 2 Tendências de IA Enterprise e Ubiquidade de Dados (Glean, IBM, McKinsey). 18 ERP Componível e Arquitetura Modular. 25 Generative UI e Interfaces Adaptativas. 4 Psicologia da Geração Z, Gamificação e Mentalidade Sandbox. 3 Definição e Arquitetura de Agentes Autônomos. 41 Aplicação de Agentes em Logística e Última Milha. 46 Governança, Riscos e Auditoria de IA. 7 Cultura de Modding e Co-criação.
Referências citadas
- 2025-10-10 – 04 -O Futuro Pertence aos Líderes Digitalmente Maduros.txt
- Top 10 trends in AI adoption for enterprises in 2025 – Glean, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.glean.com/perspectives/enterprise-insights-from-ai
- AI Agents: Evolution, Architecture, and Real-World Applications – arXiv, acessado em fevereiro 16, 2026, https://arxiv.org/html/2503.12687v1
- From Tetris to Minecraft, the Gen-Z Changing Work Mindset, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.teamsinsider.show/2111467/episodes/14954622-from-tetris-to-minecraft-the-gen-z-changing-work-mindset
- I’m completely hooked on this open world business sandbox sim, and I’m not alone, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.pcgamer.com/im-completely-hooked-on-this-open-world-business-sandbox-sim-and-im-not-alone/
- Dr. Corey Seemiller – A Generational Optimist, acessado em fevereiro 16, 2026, https://practicalwisdom.buzzsprout.com/979897/episodes/6514966-dr-corey-seemiller-a-generational-optimist
- Your Ultimate F2P Game Design Handbook is Here — Proven Insights From 10 Years XP in Designing F2P Games (1/4) | by Genesis – Medium, acessado em fevereiro 16, 2026, https://medium.com/design-bootcamp/your-ultimate-f2p-game-design-handbook-is-here-proven-insights-from-my-experience-in-designing-88d14cbe9409
- Tailoring Gameplay: Exploring Player Perspectives of Digital Game Modification by Laura E. Paul B.Sc. (Honours), acessado em fevereiro 16, 2026, https://dspace.library.uvic.ca/bitstreams/d50a5173-b0ce-4950-b1a3-d5c57501aae0/download
- Want to Manage Generation Z Effectively? Think Like a Gamer! – APlus Payroll, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.apluspayroll.com/want-to-manage-generation-z-effectively-think-like-a-gamer/
- Engaging Gen Z in the Workplace Through Gamification – ZIZO Technologies, acessado em fevereiro 16, 2026, https://playzizo.com/engaging-gen-z-workplace-gamification/
- Life as a Principal Software Engineer working on a Similar Product : r/X4Foundations, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.reddit.com/r/X4Foundations/comments/ifh3y4/life_as_a_principal_software_engineer_working_on/
- Massively Overthinking: Why and how we mod our MMORPGs, acessado em fevereiro 16, 2026, https://massivelyop.com/2024/05/09/massively-overthinking-why-and-how-we-mod-our-mmorpgs/
- What is a Sandbox Environment? Meaning and Setup – Enterprise Monkey, acessado em fevereiro 16, 2026, https://enterprisemonkey.com.au/sandbox-environment-a-complete-guide/
- Sandbox (software development) – Wikipedia, acessado em fevereiro 16, 2026, https://en.wikipedia.org/wiki/Sandbox_(software_development)
- Gamification in Learning 2026: Definition, Strategies, and Examples – Cadmium, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.gocadmium.com/resources/gamification-in-learning
- Engaging Gen Z Employees: A Game Plan for Managers in 2025 | Guul Games, acessado em fevereiro 16, 2026, https://guul.games/blog/engaging-gen-z-employees-a-game-plan-for-managers-in-2025
- The Gamification Guide (2026) – Beedeez, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.beedeez.com/en/resources/guides/gamification-guide
- Autonomous AI and Composable Architectures are Helping ERPs Transforming Energy Sector, acessado em fevereiro 16, 2026, https://erp.today/autonomous-ai-and-composable-architectures-are-helping-erps-transforming-energy-sector/
- Composable ERP Architectures: Future of Agile Enterprise Systems – Tek Leaders, acessado em fevereiro 16, 2026, https://tekleaders.com/composable-erp-architectures-agile-enterprise-systems/
- From Monoliths to Modules: Why Composable ERP Matters in 2025 – ERP Software Blog, acessado em fevereiro 16, 2026, https://erpsoftwareblog.com/cloud/2025/06/from-monoliths-to-modules-why-composable-erp-matters-in-2025/
- What Is a Composable ERP Strategy and How Does It Benefit Organizations? – Rimini Street, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.riministreet.com/blog/composable-erp-strategy-benefits/
- Composable Architecture vs. Monolithic Architecture – Boomi, acessado em fevereiro 16, 2026, https://boomi.com/blog/composable-vs-monolothic-architecture/
- ERP is Becoming Obsolete: Why the Future Belongs to Composable Integration Platforms Powered by AI – The Financial Executives Journal, acessado em fevereiro 16, 2026, https://financialexecutivesjournal.com/erp-is-becoming-obsolete-why-the-future-belongs-to-composable-integration-platforms-powered-by-ai/
- Knowledge Graphs: The AI Engine Powering Modern Business Intelligence, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.strategysoftware.com/de/blog/knowledge-graphs-the-ai-engine-powering-modern-business-intelligence
- Generative UI: A rich, custom, visual interactive user experience for …, acessado em fevereiro 16, 2026, https://research.google/blog/generative-ui-a-rich-custom-visual-interactive-user-experience-for-any-prompt/
- Generative UI: The AI-Powered Future of User Interfaces | by Khyati Brahmbhatt | Medium, acessado em fevereiro 16, 2026, https://medium.com/@knbrahmbhatt_4883/generative-ui-the-ai-powered-future-of-user-interfaces-920074f32f33
- Generative UI Explained: The Future of Adaptive Digital Products – NineTwoThree, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.ninetwothree.co/blog/generative-ui
- Headless business apps and generative UI – Perspectives on Power Platform, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.perspectives.plus/p/headless-business-apps-and-generative-ui
- Liquid AI: Build efficient general-purpose AI at every scale., acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.liquid.ai/
- Apple’s Liquid Glass UI: A Beautiful Mistake That’s Compromising User Experience, acessado em fevereiro 16, 2026, https://medium.com/design-bootcamp/apples-liquid-glass-ui-a-beautiful-mistake-that-s-compromising-user-experience-8ec207ebc243
- What is Agentic Process Automation? A Complete Guide, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.automationanywhere.com/rpa/agentic-process-automation
- Enterprise AI Agents: Beyond Productivity – IBM, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.ibm.com/think/insights/enterprise-ai-agents
- Agentic AI Frameworks: Top 8 Options in 2026 – NetApp Instaclustr, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.instaclustr.com/education/agentic-ai/agentic-ai-frameworks-top-8-options-in-2026/
- How Agentic AI is Transforming Enterprise Platforms | BCG, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.bcg.com/publications/2025/how-agentic-ai-is-transforming-enterprise-platforms
- 5 Best AI Workflow Builders in 2026 – Expert Picks – Emergent, acessado em fevereiro 16, 2026, https://emergent.sh/learn/best-ai-workflow-builders
- The agentic organization: A new operating model for AI | McKinsey, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.mckinsey.com/capabilities/people-and-organizational-performance/our-insights/the-agentic-organization-contours-of-the-next-paradigm-for-the-ai-era
- Let’s Talk: How Conversation Design Enables the Agentic Enterprise – Salesforce, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.salesforce.com/uk/news/stories/conversation-design-enables-agentic-ai/
- A Complete Guide to Agentic AI Governance – Palo Alto Networks, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.paloaltonetworks.com/cyberpedia/what-is-agentic-ai-governance
- Agentic AI governance and compliance: Managing autonomous AI risk – Okta, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.okta.com/identity-101/agentic-ai-governance-and-compliance/
- Agentic AI Governance Framework for Secure Enterprise AI – WitnessAI, acessado em fevereiro 16, 2026, https://witness.ai/blog/agentic-ai-governance-framework/
- Best 5 use cases of AI in last-mile delivery – COAX Software, acessado em fevereiro 16, 2026, https://coaxsoft.com/blog/best-use-cases-of-ai-in-last-mile-delivery
- From delays to precision: How AI is optimizing last-mile deliveries – Infosys, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.infosys.com/iki/perspectives/ai-optimizing-last-mile-deliveries.html
- AI for all: How AI Agents are hyper-personalizing enterprise software – Artefact, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.artefact.com/blog/ai-for-all-how-ai-agents-are-hyper-personalizing-enterprise-software/
- Audit challenges and changes in 2026 – Thomson Reuters, acessado em fevereiro 16, 2026, https://tax.thomsonreuters.com/blog/challenges-and-changes-within-the-audit-industry/
- 5 ways AI will redefine the audit profession in 2026 | CFO Dive, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.cfodive.com/news/5-ways-ai-will-redefine-the-audit-profession-in-2026/812136/
- How can tech leaders manage emerging generative AI risks today while keeping the future in mind? – Deloitte, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.deloitte.com/us/en/insights/topics/digital-transformation/four-emerging-categories-of-gen-ai-risks.html
- 2026 Audit Trends: Validating Agentic AI and the “Explainability Gap” – Audit and Accounting – Tax, Audit & Acctg – Thomson Reuters Community, acessado em fevereiro 16, 2026, https://community.thomsonreuters.com/tax-accounting/f/audit-and-accounting/34771/2026-audit-trends-validating-agentic-ai-and-the-explainability-gap
- Data Integrity Trends 2024 – Precisely, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.precisely.com/data-integrity/data-integrity-trends-2024/
- Top Pitfalls to Avoid When Implementing AI in the Enterprise – Lumen Blog, acessado em fevereiro 16, 2026, https://blog.lumen.com/top-pitfalls-to-avoid-when-implementing-ai-in-the-enterprise/
- leadership in the age of ai Archives – MDI Management Development, acessado em fevereiro 16, 2026, https://blog.mdi-training.com/tag/leadership-in-the-age-of-ai/
- The enterprise in 2030 | IBM, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.ibm.com/thought-leadership/institute-business-value/en-us/report/enterprise-2030
Charting a path to the data- and AI-driven enterprise of 2030 – McKinsey, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.mckinsey.com/capabilities/tech-and-ai/our-insights/charting-a-path-to-the-data-and-ai-driven-enterprise-of-2030
O Fim da Jornada do Herói Solitário e o Início da Era da Orquestração
A história da gestão corporativa moderna, especialmente nas últimas três décadas, foi escrita sob a ótica da “Jornada do Herói”. Nesta narrativa, consagrada pelas estruturas hierárquicas do século XX e amplificada pela cultura do empreendedorismo individualista, o gestor é o protagonista central. Ele opera como um personagem de RPG (Role-Playing Game) de nível elevado, um indivíduo que acumulou experiência (XP) através de batalhas operacionais incessantes, equipou-se com MBAs e certificações como se fossem armaduras lendárias, e cuja função primordial é resolver problemas complexos com suas próprias mãos ou liderar um pequeno grupo de aventureiros — sua equipe direta — através de masmorras lineares de processos corporativos. O sucesso, neste paradigma, dependia intrinsecamente dos atributos individuais desse líder: seu carisma (Charisma), sua inteligência técnica (Intelligence) e, sobretudo, sua capacidade de “grinding” — o trabalho duro, repetitivo e manual necessário para subir de nível e entregar resultados.
No entanto, conforme estabelecemos no artigo anterior sobre a Maturidade Digital 1, chegamos a um ponto de inflexão irreversível. O modelo de liderança baseado no heroísmo individual e na centralização técnica não é apenas obsoleto; ele tornou-se um gargalo existencial para as organizações que almejam sobreviver à próxima década. A complexidade do ambiente de negócios projetado para 2026-2030, impulsionada pela onipresença de dados e pela velocidade vertiginosa da Inteligência Artificial, torna humanamente impossível que um único “personagem”, por mais alto que seja seu nível, processe todas as variáveis, tome todas as decisões táticas e execute as ações necessárias para manter a competitividade.1
Estamos testemunhando, portanto, uma mudança fundamental de gênero na “gameplay” corporativa. Estamos migrando do paradigma do RPG para o RTS (Real-Time Strategy — Estratégia em Tempo Real). Neste novo ecossistema, o gestor deixa de ser o guerreiro que brande a espada na linha de frente, limitado pelo seu campo de visão imediato e pela sua barra de energia (stamina). Ele ascende para se tornar o Comandante que observa o mapa de cima, gerenciando recursos escassos, construindo infraestruturas escaláveis e, crucialmente, orquestrando exércitos de unidades autônomas — algumas biológicas (humanos), mas cada vez mais sintéticas (agentes de IA).
Este relatório, o segundo de nossa série sobre a transformação digital e a liderança do futuro, aprofunda-se na revolução dos Agentes Autônomos (Agentic AI) e como eles forçam uma redefinição radical do papel da liderança. Não estamos mais debatendo a utilização de ferramentas passivas como o ChatGPT para redigir e-mails; estamos analisando sistemas que percebem, raciocinam e agem sobre o mundo digital.3 O gestor do futuro próximo não é um supervisor de tarefas; é um Treinador de Bots, um arquiteto de fluxos de trabalho e um estrategista de sistemas híbridos. A pergunta central deixa de ser “Como eu faço isso?” para “Como eu treino meu ecossistema de agentes para fazer isso de forma autônoma, personalizada, segura e escalável?”.
Parte I: A Psicologia da Nova Liderança — O Gestor “Gamer” e a Demanda por Personalização
Para compreender a magnitude da mudança nas ferramentas de gestão, é imperativo primeiro entender a mudança na mente de quem vai operá-las. A ascensão da Geração Z e dos Millennials mais jovens aos cargos de gestão não é apenas uma troca demográfica; é a chegada de uma nova “mentalidade de sistema” moldada por décadas de imersão em ambientes digitais complexos e jogos eletrônicos.
1.1. A Mente do Nativo Digital: Do Tetris ao Minecraft
A analogia com os videogames não é um recurso retórico superficial; é o modelo mental predominante da nova força de trabalho. As gerações anteriores operavam sob o que podemos chamar de “Mentalidade Tetris”. No Tetris, o trabalho chega como blocos predefinidos (tarefas), caindo em um ritmo cada vez mais rápido. O papel do gestor era girar esses blocos e encaixá-los nas linhas existentes para evitar que a tela transbordasse. Era um jogo de reação, de organização dentro de limites rígidos e de limpeza de processos lineares.4 O sucesso era medido pela capacidade de manter a ordem e evitar o caos por mais tempo.
A nova geração de gestores, contudo, cresceu sob a “Mentalidade Minecraft” ou “Roblox”. Para eles, o ambiente digital não é um fluxo de tarefas a ser eliminado, mas um mundo aberto — um sandbox (caixa de areia) — repleto de recursos brutos que podem ser combinados para criar novas ferramentas e estruturas.4 Eles não aceitam o software como uma ferramenta imutável entregue pelo departamento de TI; eles veem o software como uma plataforma maleável que deve ser “moddada” (modificada) para se adaptar às suas necessidades específicas de expressão e eficiência.7
Essa distinção é crucial. O gestor “Gamer” não quer apenas usar o ERP (Enterprise Resource Planning); ele quer customizar a interface, automatizar as rotinas chatas (o “grinding”) e criar atalhos (macros) que lhe deem vantagem competitiva. A personalização não é um luxo; é um requisito básico de usabilidade. Eles esperam que seus sistemas de gestão possuam a mesma fluidez e capacidade de resposta que os jogos de mundo aberto que dominaram em sua juventude.9
1.2. O Desejo por “Modding” Corporativo e a Rejeição da Rigidez
Historicamente, o software corporativo foi desenhado com base na premissa da padronização rígida para garantir controle e conformidade. Um processo de compra no SAP ou Oracle era idêntico para um gerente em São Paulo ou em Tóquio, independentemente das nuances locais. Para a nova geração de líderes, essa rigidez é interpretada como um “bug” de design, não uma feature.
Estudos sobre a interação da Geração Z com a tecnologia mostram uma preferência clara por ambientes que permitem “agência” e “co-criação”.8 No contexto dos jogos, o “modding” — a prática de alterar o código ou os ativos de um jogo para criar novas experiências — é uma das formas mais elevadas de engajamento. Transpondo isso para o ambiente corporativo, o novo gestor espera ser capaz de realizar “modding” nos seus fluxos de trabalho. Se o processo de aprovação de despesas é lento, ele quer criar um agente autônomo que pré-valide os recibos e apenas o notifique das exceções, sem precisar abrir um chamado para a TI e esperar seis meses por uma alteração no código fonte do sistema legado.11
Essa demanda por personalização colide frontalmente com as arquiteturas monolíticas do passado. O gestor moderno exige sistemas que funcionem como “Sandboxes Seguros”: ambientes onde eles possam experimentar novos modelos de automação e análise de dados sem derrubar o servidor principal da empresa.13 A capacidade de personalização passa a ser vista como uma extensão da competência do líder; um gestor que não consegue adaptar suas ferramentas é visto como um “NPC” (Non-Playable Character), alguém limitado por scripts predefinidos, incapaz de inovação real.
1.3. Feedback Loops e a Gamificação da Performance
Outro aspecto vital trazido pela mentalidade gamer é a expectativa por feedback imediato e visualização clara de progresso. Em um RPG ou RTS, o jogador tem barras de experiência, árvores de habilidades (skill trees) e estatísticas de desempenho visíveis em tempo real. No mundo corporativo tradicional, o feedback é anual (avaliação de desempenho) e os KPIs são frequentemente opacos ou atrasados.15
Os Agentes Autônomos e a IA generativa oferecem a infraestrutura para atender a essa demanda. O novo gestor espera atuar como um “Treinador” que vê as estatísticas de seus “atletas” (bots e humanos) em tempo real. Ele quer dashboards que não sejam estáticos, mas que narrem a história do desempenho da equipe momento a momento, permitindo micro-ajustes táticos — o equivalente a dar um “buff” (melhoria temporária) em uma unidade durante uma batalha crítica.16 A gamificação aqui não se refere a transformar o trabalho em brincadeira com badges superficiais, mas a trazer a clareza de objetivos, a transparência de métricas e a agência sobre o resultado que tornam os jogos tão engajantes para essa demografia.10
Parte II: A Arquitetura do Futuro — O Core Estável e a “Shell” Líquida
Para viabilizar a visão do gestor como um estrategista de RTS que personaliza seus exércitos, a infraestrutura tecnológica subjacente das organizações precisa sofrer uma metamorfose. O modelo monolítico, onde interface, lógica de negócios e dados vivem em um bloco inseparável, é incompatível com a velocidade da era da IA. Surge então o paradigma do “Core Estável com Shell Inteligente e Personalizável”.
2.1. O Fim do Monólito: ERP Componível e Arquitetura Headless
O futuro do software de gestão reside na arquitetura Componível (Composable ERP). Neste modelo, a empresa é visualizada não como um edifício de concreto, mas como um conjunto de blocos de LEGO — microsserviços e APIs modulares — que podem ser montados e remontados conforme a estratégia muda.18
- O Core Estável (O Motor do Jogo): No centro, temos o “Ledger” imutável — os registros financeiros, fiscais e legais que exigem precisão absoluta e conformidade regulatória. Assim como o motor gráfico de um jogo (Game Engine) define as leis da física e a renderização básica que não podem ser quebradas, o Core do ERP garante que a contabilidade feche e os impostos sejam pagos. Este núcleo deve ser robusto, seguro e, paradoxalmente, “chato” e invisível.21
- A Shell Personalizável (A Interface e os Mods): Ao redor deste núcleo estável, reside a camada de inovação: a “Shell” ou casca, composta por Agentes Autônomos e Interfaces Generativas. É aqui que o gestor atua. Ele não altera o código contábil do Core, mas configura agentes que interagem com esse Core para extrair dados, processar transações e gerar insights de formas únicas para seu departamento.23
Essa separação é o que permite a personalização em escala. O “Core” é o mesmo para todos (garantindo a “Single Version of Truth” 24), mas a forma como cada gestor interage com ele é totalmente moldada por IA.
2.2. Generative UI: A Interface que se Desenha em Tempo Real
A manifestação mais visível dessa “Shell” inteligente é a Interface de Usuário Generativa (Generative UI ou GenUI). Até 2024, as interfaces de software eram determinísticas: um designer humano decidia onde ficava cada botão, e todos os usuários viam a mesma tela. Isso é o equivalente a um jogo linear.
Em 2026, com o avanço de LLMs multimodais, entramos na era das interfaces probabilísticas e fluidas. Quando um gestor pergunta ao sistema: “Como está a performance de vendas da nova linha de produtos no Nordeste comparada com a campanha de marketing do mês passado?”, o sistema não o leva para um menu fixo. O Agente de IA:
- Compreende a Intenção: Analisa o pedido semântico.
- Busca os Dados: Conecta-se às APIs do ERP (Vendas) e do CRM (Marketing).
- Gera a Interface: Desenha, em tempo real, um dashboard único — talvez um mapa de calor sobreposto a um gráfico de linhas de investimento — especificamente para responder àquela pergunta naquele momento.25
Para o novo gestor, o software deixa de ser uma série de telas para decorar e passa a ser uma superfície líquida que se adapta ao seu contexto.26 Isso elimina a curva de aprendizado de navegação (clicar em menus) e foca puramente na curva de aprendizado de fazer as perguntas certas (estratégia). Se o gestor prefere ver dados em tabelas, a IA aprende e apresenta tabelas. Se prefere gráficos visuais, a IA se adapta. É a personalização definitiva, comparável a configurar o HUD (Heads-Up Display) de um jogo complexo para mostrar apenas as informações vitais para o estilo de jogo daquele jogador.29
2.3. Agentes Autônomos como a Camada de Orquestração
Se a GenUI é a pele do novo sistema, os Agentes Autônomos são os músculos e o cérebro tático. Diferente dos chatbots passivos, os agentes possuem “agência”: a capacidade de perseguir objetivos abstratos através de múltiplos passos sem supervisão humana constante.3
A arquitetura técnica de um agente empresarial típico em 2026 envolve:
- Percepção (Sensors): Monitoramento contínuo de eventos no Core (ex: “Novo pedido entrou”, “Estoque baixou do mínimo”).
- Memória (Context): Acesso ao histórico do cliente, políticas da empresa e preferências do gestor (RAG – Retrieval-Augmented Generation).
- Raciocínio (Brain/LLM): Capacidade de planejar uma sequência de ações (ex: “Para repor estoque, preciso cotar com 3 fornecedores, aprovar o menor preço e agendar entrega”).
- Ação (Tools/Actuators): Permissão para executar transações via API (enviar e-mail, criar Ordem de Compra no ERP).32
Essa camada agêntica atua como o middleware definitivo para a personalização de processos.34 O software “padrão” não precisa saber lidar com uma exceção logística específica de um cliente VIP; o gestor simplesmente treina um Agente de Logística para tratar aquele cliente de forma diferenciada, criando uma regra de negócio flexível que vive na camada do agente, não no código rígido do ERP.
Parte III: O Novo Papel do Gestor — De Jogador a ‘Treinador de Bots’
Com a infraestrutura de RTS estabelecida (Core Estável + Agentes), o papel do gestor sofre sua transformação final. Ele não é mais pago para executar tarefas (microgestão), mas para desenhar e treinar os sistemas que executam as tarefas. Ele se torna um Treinador de Bots.
3.1. A Competência de “Prompt Engineering” como Delegação Estratégica
No passado, delegar significava pedir a um humano e esperar que ele usasse seu julgamento e “bom senso”. Com agentes de IA, “bom senso” não existe; existe apenas o que foi explicitamente programado ou inferido no treinamento. Portanto, a habilidade de escrever prompts evolui de um truque técnico para uma competência gerencial essencial de Arquitetura de Intenção.35
O Treinador de Bots deve saber decompor objetivos estratégicos complexos em diretrizes claras que a máquina possa seguir sem alucinar. Isso envolve:
- Definição de Persona: “Você é um auditor sênior cético. Analise este balanço procurando inconsistências agressivas.”
- Cadeia de Pensamento (Chain-of-Thought): O gestor não pede apenas o resultado; ele ensina ao bot como pensar. “Primeiro, compare as despesas com o ano anterior. Segundo, isole as variações acima de 10%. Terceiro, verifique se há justificativas nos memorandos anexos.”.31
- Few-Shot Prompting (Gestão por Exemplo): Em vez de escrever regras abstratas, o gestor fornece exemplos de “o que é um bom trabalho”. “Aqui estão 5 exemplos de e-mails de negociação que tiveram sucesso. Use este tom e estrutura.”
Essa é a nova forma de “mentoria”. O gestor transfere seu conhecimento tácito e experiência para o agente através de exemplos e instruções estruturadas, criando um ativo digital que pode trabalhar 24/7.36
3.2. O Ciclo de Feedback (RLHF Gerencial)
A sigla técnica RLHF (Reinforcement Learning from Human Feedback — Aprendizado por Reforço com Feedback Humano) descreve como os grandes modelos de IA são treinados. No contexto corporativo, isso se torna a rotina diária do gestor.
O Treinador de Bots não executa o processo; ele revisa os “replays” das execuções dos agentes.
- Análise de Logs: O gestor analisa as interações do agente com clientes ou sistemas internos. Onde o agente hesitou? Onde ele foi rude? Onde ele tomou uma decisão subótima?
- Correção e Refinamento: Ao identificar um erro, o gestor não apenas corrige o resultado final; ele corrige a instrução (o prompt) ou adiciona um novo exemplo à base de conhecimento do agente para que o erro não se repita. É um processo contínuo de fine-tuning operacional.31
Dessa forma, a “personalização” do software acontece organicamente. Quanto mais o gestor corrige e guia o agente, mais o agente se torna uma extensão personalizada da vontade e do estilo daquele gestor. O software “aprende” a gerenciar como o gestor gerenciaria, mas com escala infinita.
3.3. Definindo as Regras do Jogo: Governança e Guardrails
No paradigma RTS, o jogador define a postura de suas unidades (Agressiva, Defensiva, Furtiva). No corporativo, isso é a governança ética e operacional. O maior risco da IA Agêntica é a execução autônoma de ações erradas em alta velocidade (ex: dar um desconto de 90% indevido a mil clientes em 1 minuto).
O Treinador de Bots é responsável por configurar os Guardrails (Guarda-corpos) dos seus agentes:
- Limites de Autonomia: “Você pode aprovar reembolsos até R$ 500,00. Acima disso, escale para mim.”.38
- Verificação de Fatos: “Nunca cite uma lei ou regulamento sem cruzar a referência com a base de dados jurídica interna oficial.”
- Tom e Marca: Garantir que a “personalidade” do agente esteja alinhada aos valores da empresa.
A governança deixa de ser um documento empoeirado de compliance para ser um conjunto de regras ativas codificadas nos agentes. O gestor define o “círculo mágico” dentro do qual o agente pode operar livremente (o Sandbox), garantindo segurança sem matar a agilidade.39
Parte IV: Gameplay na Prática — Cenários de RTS Corporativo
Para ilustrar a transformação, vamos analisar como o modelo RTS se aplica a funções corporativas reais, contrastando o modelo antigo (RPG) com o novo (Treinador de Bots).
4.1. Cenário: A Batalha Logística (Supply Chain)
- Modelo RPG (O Passado): O Gestor de Logística chega de manhã e vê 50 e-mails de atraso. Ele (o herói) abre planilha por planilha, liga para transportadoras, negocia prioridades e apaga incêndios um a um. Sua “stamina” acaba às 18h. O problema da “última milha” é resolvido manualmente.
- Modelo RTS (O Futuro): O Gestor acorda e olha seu “Minimapa” (Dashboard GenUI). Ele vê alertas vermelhos em uma rota específica. Ele não liga para o motorista. Ele seleciona um grupo de Agentes de Negociação de Frete e define uma nova estratégia: “Priorizem a entrega para clientes Platinum nesta região, autorizando até 15% de sobrepreço em frete expresso.”
- Os agentes executam a negociação com milhares de motoristas simultaneamente via apps de mensagem.
- Outro grupo de Agentes de Clientes avisa proativamente os receptores sobre o atraso, oferecendo opções personalizadas de re-agendamento baseadas no histórico de preferência de cada um (hiper-personalização da última milha).41
- O Gestor apenas monitora o KPI de “Custo vs. Satisfação” se equilibrando em tempo real, intervindo apenas nas exceções críticas que os agentes não conseguiram resolver (Fog of War dissipado por dados).
4.2. Cenário: O Recrutamento de Talentos (HR)
- Modelo RPG: O Recrutador lê 100 currículos, entrevista 10 pessoas, toma notas manuais. O processo é linear e lento. A experiência do candidato é padronizada e fria.
- Modelo RTS: O Gestor de Talentos comanda um esquadrão de Agentes de Sourcing. Ele define os parâmetros da “missão”: “Busquem perfis com experiência em Rust e liderança de projetos open-source, mas valorizem candidatos atípicos de indústrias criativas.”
- Os agentes varrem o LinkedIn, GitHub e comunidades de nicho 24/7.
- Eles iniciam conversas personalizadas e contextualizadas com candidatos potenciais, respondendo dúvidas sobre cultura e benefícios em tempo real.
- O Gestor recebe uma lista curta de candidatos “aquecidos”, com resumos de suas interações e análises de fit cultural geradas pela IA. Ele foca seu tempo humano na entrevista final de “venda” da vaga e conexão emocional. O processo é escalável e profundamente personalizado para cada candidato.43
4.3. Cenário: Controladoria e Auditoria (Financeiro)
- Modelo RPG: O Auditor puxa amostragens aleatórias de notas fiscais, verifica conformidade em planilhas Excel. É um processo reativo e amostral (risco de erro alto).
- Modelo RTS: O Controller configura Agentes Sentinelas que monitoram 100% das transações em tempo real.
- Quando uma anomalia é detectada (ex: uma nota fiscal duplicada ou fora do padrão de preço histórico), o agente bloqueia o pagamento e solicita explicação ao emissor automaticamente.
- O Gestor atua apenas sobre as anomalias confirmadas, treinando o agente para refinar o que é “fraude” e o que é “variação de mercado”. A auditoria torna-se contínua e total, não amostral e anual.44
| Função | Ação do Gestor RPG (Manual) | Ação do Gestor RTS (Bot Trainer) | Ganho de Escala |
|---|---|---|---|
| Vendas | Escrever e-mail de prospecção para 10 leads/dia. | Treinar agente para personalizar abordagem para 10.000 leads/dia com base em notícias recentes de cada empresa. | 1000x |
| Atendimento | Resolver ticket de suporte complexo. | Analisar tickets falhos, ajustar a base de conhecimento (RAG) para que o agente resolva na próxima vez. | Exponencial |
| Marketing | Criar uma campanha para um segmento. | Definir diretrizes da marca e deixar agentes criarem variações de anúncios personalizadas para cada indivíduo (1:1). | Infinito |
Parte V: Os Riscos do Jogo — “Fog of War”, Caixas Pretas e a Ética da Automação
A transição para o modelo RTS não é um caminho livre de perigos. Assim como nos jogos de estratégia, a complexidade traz novos modos de falha que podem ser catastróficos se não gerenciados.
5.1. A Ilusão da Caixa Preta e a Necessidade de “Explicabilidade”
O maior risco para o Treinador de Bots é perder o entendimento de como o resultado foi atingido. Se o agente toma decisões complexas baseadas em redes neurais probabilísticas, a empresa pode se tornar uma “Caixa Preta”.
- O Risco: Um agente de crédito começa a negar empréstimos para um grupo demográfico específico devido a um viés oculto nos dados de treinamento. O gestor vê o lucro subir (curto prazo), mas não vê o risco reputacional e legal se acumulando (longo prazo).
- A Solução: Auditoria de “Cadeia de Pensamento” (Chain-of-Thought Audit). O software de gestão deve exigir que os agentes registrem não apenas a decisão, mas a lógica passo-a-passo usada. O gestor deve auditar esses logs de raciocínio regularmente. A explicabilidade torna-se um pilar de compliance.46
5.2. Alucinação Estratégica e a Integridade dos Dados
No RTS, se seus batedores lhe dão informações falsas sobre a posição do inimigo, você perde a guerra. No corporativo, se a IA “alucina” dados de mercado ou inventa fatos sobre clientes, a estratégia colapsa.
- Integridade de Dados: A máxima “Lixo entra, Lixo sai” é elevada à potência máxima com agentes autônomos. A manutenção da qualidade dos dados mestres (o Core Estável) torna-se a tarefa de defesa mais crítica da organização. Sem dados confiáveis, os agentes são mísseis guiados sem sistema de navegação.48
- Verificação Cruzada: Sistemas maduros usarão múltiplos agentes para verificar o trabalho uns dos outros (Red Adversarial), reduzindo a taxa de erro antes que ela chegue ao cliente.
5.3. A Atrofia da Habilidade Humana (De-Skilling)
Se delegarmos todo o trabalho tático aos bots, como treinaremos a próxima geração de comandantes? Um general de RTS geralmente começou como um soldado. Se os juniores nunca escreverem um e-mail difícil ou negociarem um frete manualmente, eles desenvolverão a intuição necessária para treinar os bots no futuro?
- O Desafio: As empresas precisarão criar “simuladores” e rotinas de treinamento deliberado onde os humanos pratiquem a execução manual para entender os princípios, antes de passarem a supervisionar a IA. A educação corporativa deixará de ser sobre “como usar o software” para ser sobre “como o negócio funciona”.50
Conclusão: O Jogo Infinito da Maturidade Agêntica
A analogia do jogo é poderosa, mas tem um limite: jogos como StarCraft ou Final Fantasy têm um fim (“Game Over” ou Vitória). Nos negócios, como diria Simon Sinek, estamos em um “Jogo Infinito”. O objetivo não é vencer uma partida, mas manter-se jogando o máximo de tempo possível.
A transição do gestor de Herói de RPG para Comandante de RTS e Treinador de Bots não é uma escolha de estilo; é uma adaptação evolutiva necessária. As empresas que tentarem lutar a guerra de 2030 com heróis individuais armados de planilhas serão atropeladas por organizações que operam como enxames (swarms) coordenados de inteligência híbrida.
O “Treinador de Bots” é, em última análise, um humanista tecnológico. Ele usa a máquina para escalar a intenção humana. Ele remove a robótica do humano (as tarefas repetitivas) e a transfere para os robôs, permitindo que o humano foque no que é insubstituível: a definição do propósito, a ética, a empatia e a estratégia criativa.
Para os líderes que leem este relatório, o chamado para a ação é imediato:
- Abandone o Microgerenciamento: Pare de “grindar” XP em tarefas que um agente poderia fazer. Comece a documentar seus processos mentais.
- Adote o “Sandbox”: Crie ambientes seguros onde sua equipe (especialmente os talentos da Geração Z) possa testar e criar seus próprios agentes. Dê a eles as ferramentas de “modding”.
- Foque na Arquitetura: Exija de seus fornecedores de tecnologia sistemas abertos e componíveis, não caixas fechadas. A capacidade de conectar agentes ao seu Core será seu maior diferencial competitivo.
O futuro não pertence à IA. O futuro pertence aos líderes que souberem treinar a IA para jogar o seu jogo. A era do RTS corporativo começou. GLHF (Good Luck, Have Fun).
Tabela 2: Resumo Comparativo dos Paradigmas de Gestão
| Dimensão | Paradigma RPG (Tradicional) | Paradigma RTS (Agêntico) |
|---|---|---|
| Foco Principal | Desenvolvimento do Indivíduo (Avatar) | Desenvolvimento do Sistema (Exército/Economia) |
| Unidade de Trabalho | Tarefa Isolada | Fluxo de Trabalho Autônomo (Workflow) |
| Escala | Limitada pelo tempo humano (Headcount) | Limitada pelo Compute e Qualidade do Prompt |
| Interface | Menus Estáticos e Padronizados | Generative UI (Líquida e Personalizada) |
| Mentalidade | Tetris (Organizar o caos que chega) | Minecraft/Sandbox (Construir e Modificar) |
| Papel do Líder | Supervisor e Executor (Hero) | Arquiteto e Treinador (Bot Trainer) |
| Tratamento de Erros | Correção pontual do resultado | Refinamento do Prompt/Modelo (Fine-Tuning) |
| Principal Risco | Burnout humano, gargalo de decisão | Alucinação da IA, Viés de “Caixa Preta” |
Referências
- 2025-10-10 – 04 -O Futuro Pertence aos Líderes Digitalmente Maduros.txt
- Top 10 trends in AI adoption for enterprises in 2025 – Glean, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.glean.com/perspectives/enterprise-insights-from-ai
- AI Agents: Evolution, Architecture, and Real-World Applications – arXiv, acessado em fevereiro 16, 2026, https://arxiv.org/html/2503.12687v1
- From Tetris to Minecraft, the Gen-Z Changing Work Mindset, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.teamsinsider.show/2111467/episodes/14954622-from-tetris-to-minecraft-the-gen-z-changing-work-mindset
- I’m completely hooked on this open world business sandbox sim, and I’m not alone, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.pcgamer.com/im-completely-hooked-on-this-open-world-business-sandbox-sim-and-im-not-alone/
- Dr. Corey Seemiller – A Generational Optimist, acessado em fevereiro 16, 2026, https://practicalwisdom.buzzsprout.com/979897/episodes/6514966-dr-corey-seemiller-a-generational-optimist
- Your Ultimate F2P Game Design Handbook is Here — Proven Insights From 10 Years XP in Designing F2P Games (1/4) | by Genesis – Medium, acessado em fevereiro 16, 2026, https://medium.com/design-bootcamp/your-ultimate-f2p-game-design-handbook-is-here-proven-insights-from-my-experience-in-designing-88d14cbe9409
- Tailoring Gameplay: Exploring Player Perspectives of Digital Game Modification by Laura E. Paul B.Sc. (Honours), acessado em fevereiro 16, 2026, https://dspace.library.uvic.ca/bitstreams/d50a5173-b0ce-4950-b1a3-d5c57501aae0/download
- Want to Manage Generation Z Effectively? Think Like a Gamer! – APlus Payroll, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.apluspayroll.com/want-to-manage-generation-z-effectively-think-like-a-gamer/
- Engaging Gen Z in the Workplace Through Gamification – ZIZO Technologies, acessado em fevereiro 16, 2026, https://playzizo.com/engaging-gen-z-workplace-gamification/
- Life as a Principal Software Engineer working on a Similar Product : r/X4Foundations, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.reddit.com/r/X4Foundations/comments/ifh3y4/life_as_a_principal_software_engineer_working_on/
- Massively Overthinking: Why and how we mod our MMORPGs, acessado em fevereiro 16, 2026, https://massivelyop.com/2024/05/09/massively-overthinking-why-and-how-we-mod-our-mmorpgs/
- What is a Sandbox Environment? Meaning and Setup – Enterprise Monkey, acessado em fevereiro 16, 2026, https://enterprisemonkey.com.au/sandbox-environment-a-complete-guide/
- Sandbox (software development) – Wikipedia, acessado em fevereiro 16, 2026, https://en.wikipedia.org/wiki/Sandbox_(software_development)
- Gamification in Learning 2026: Definition, Strategies, and Examples – Cadmium, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.gocadmium.com/resources/gamification-in-learning
- Engaging Gen Z Employees: A Game Plan for Managers in 2025 | Guul Games, acessado em fevereiro 16, 2026, https://guul.games/blog/engaging-gen-z-employees-a-game-plan-for-managers-in-2025
- The Gamification Guide (2026) – Beedeez, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.beedeez.com/en/resources/guides/gamification-guide
- Autonomous AI and Composable Architectures are Helping ERPs Transforming Energy Sector, acessado em fevereiro 16, 2026, https://erp.today/autonomous-ai-and-composable-architectures-are-helping-erps-transforming-energy-sector/
- Composable ERP Architectures: Future of Agile Enterprise Systems – Tek Leaders, acessado em fevereiro 16, 2026, https://tekleaders.com/composable-erp-architectures-agile-enterprise-systems/
- From Monoliths to Modules: Why Composable ERP Matters in 2025 – ERP Software Blog, acessado em fevereiro 16, 2026, https://erpsoftwareblog.com/cloud/2025/06/from-monoliths-to-modules-why-composable-erp-matters-in-2025/
- What Is a Composable ERP Strategy and How Does It Benefit Organizations? – Rimini Street, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.riministreet.com/blog/composable-erp-strategy-benefits/
- Composable Architecture vs. Monolithic Architecture – Boomi, acessado em fevereiro 16, 2026, https://boomi.com/blog/composable-vs-monolothic-architecture/
- ERP is Becoming Obsolete: Why the Future Belongs to Composable Integration Platforms Powered by AI – The Financial Executives Journal, acessado em fevereiro 16, 2026, https://financialexecutivesjournal.com/erp-is-becoming-obsolete-why-the-future-belongs-to-composable-integration-platforms-powered-by-ai/
- Knowledge Graphs: The AI Engine Powering Modern Business Intelligence, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.strategysoftware.com/de/blog/knowledge-graphs-the-ai-engine-powering-modern-business-intelligence
- Generative UI: A rich, custom, visual interactive user experience for …, acessado em fevereiro 16, 2026, https://research.google/blog/generative-ui-a-rich-custom-visual-interactive-user-experience-for-any-prompt/
- Generative UI: The AI-Powered Future of User Interfaces | by Khyati Brahmbhatt | Medium, acessado em fevereiro 16, 2026, https://medium.com/@knbrahmbhatt_4883/generative-ui-the-ai-powered-future-of-user-interfaces-920074f32f33
- Generative UI Explained: The Future of Adaptive Digital Products – NineTwoThree, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.ninetwothree.co/blog/generative-ui
- Headless business apps and generative UI – Perspectives on Power Platform, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.perspectives.plus/p/headless-business-apps-and-generative-ui
- Liquid AI: Build efficient general-purpose AI at every scale., acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.liquid.ai/
- Apple’s Liquid Glass UI: A Beautiful Mistake That’s Compromising User Experience, acessado em fevereiro 16, 2026, https://medium.com/design-bootcamp/apples-liquid-glass-ui-a-beautiful-mistake-that-s-compromising-user-experience-8ec207ebc243
- What is Agentic Process Automation? A Complete Guide, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.automationanywhere.com/rpa/agentic-process-automation
- Enterprise AI Agents: Beyond Productivity – IBM, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.ibm.com/think/insights/enterprise-ai-agents
- Agentic AI Frameworks: Top 8 Options in 2026 – NetApp Instaclustr, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.instaclustr.com/education/agentic-ai/agentic-ai-frameworks-top-8-options-in-2026/
- How Agentic AI is Transforming Enterprise Platforms | BCG, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.bcg.com/publications/2025/how-agentic-ai-is-transforming-enterprise-platforms
- 5 Best AI Workflow Builders in 2026 – Expert Picks – Emergent, acessado em fevereiro 16, 2026, https://emergent.sh/learn/best-ai-workflow-builders
- The agentic organization: A new operating model for AI | McKinsey, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.mckinsey.com/capabilities/people-and-organizational-performance/our-insights/the-agentic-organization-contours-of-the-next-paradigm-for-the-ai-era
- Let’s Talk: How Conversation Design Enables the Agentic Enterprise – Salesforce, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.salesforce.com/uk/news/stories/conversation-design-enables-agentic-ai/
- A Complete Guide to Agentic AI Governance – Palo Alto Networks, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.paloaltonetworks.com/cyberpedia/what-is-agentic-ai-governance
- Agentic AI governance and compliance: Managing autonomous AI risk – Okta, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.okta.com/identity-101/agentic-ai-governance-and-compliance/
- Agentic AI Governance Framework for Secure Enterprise AI – WitnessAI, acessado em fevereiro 16, 2026, https://witness.ai/blog/agentic-ai-governance-framework/
- Best 5 use cases of AI in last-mile delivery – COAX Software, acessado em fevereiro 16, 2026, https://coaxsoft.com/blog/best-use-cases-of-ai-in-last-mile-delivery
- From delays to precision: How AI is optimizing last-mile deliveries – Infosys, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.infosys.com/iki/perspectives/ai-optimizing-last-mile-deliveries.html
- AI for all: How AI Agents are hyper-personalizing enterprise software – Artefact, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.artefact.com/blog/ai-for-all-how-ai-agents-are-hyper-personalizing-enterprise-software/
- Audit challenges and changes in 2026 – Thomson Reuters, acessado em fevereiro 16, 2026, https://tax.thomsonreuters.com/blog/challenges-and-changes-within-the-audit-industry/
- 5 ways AI will redefine the audit profession in 2026 | CFO Dive, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.cfodive.com/news/5-ways-ai-will-redefine-the-audit-profession-in-2026/812136/
- How can tech leaders manage emerging generative AI risks today while keeping the future in mind? – Deloitte, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.deloitte.com/us/en/insights/topics/digital-transformation/four-emerging-categories-of-gen-ai-risks.html
- 2026 Audit Trends: Validating Agentic AI and the “Explainability Gap” – Audit and Accounting – Tax, Audit & Acctg – Thomson Reuters Community, acessado em fevereiro 16, 2026, https://community.thomsonreuters.com/tax-accounting/f/audit-and-accounting/34771/2026-audit-trends-validating-agentic-ai-and-the-explainability-gap
- Data Integrity Trends 2024 – Precisely, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.precisely.com/data-integrity/data-integrity-trends-2024/
- Top Pitfalls to Avoid When Implementing AI in the Enterprise – Lumen Blog, acessado em fevereiro 16, 2026, https://blog.lumen.com/top-pitfalls-to-avoid-when-implementing-ai-in-the-enterprise/
- leadership in the age of ai Archives – MDI Management Development, acessado em fevereiro 16, 2026, https://blog.mdi-training.com/tag/leadership-in-the-age-of-ai/
- The enterprise in 2030 | IBM, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.ibm.com/thought-leadership/institute-business-value/en-us/report/enterprise-2030
Charting a path to the data- and AI-driven enterprise of 2030 – McKinsey, acessado em fevereiro 16, 2026, https://www.mckinsey.com/capabilities/tech-and-ai/our-insights/charting-a-path-to-the-data-and-ai-driven-enterprise-of-2030
FIQUE POR DENTRO

